Conselho Federal de Medicina aprova tratamento de Doença de Crohn com célula-tronco

blog-post-alergia-1.jpg

Estudo de Rio Preto para uso de células-tronco contra a Doença de Crohn é aprovado por câmara técnica do CFM, o que abre caminho para tratamento ser expandido

Estudo realizado pelo hematologista Milton Ruiz e pelo proctologista Roberto Luiz Kaiser Junior no hospital Beneficência Portuguesa, em Rio Preto, abriu caminho para inclusão do transplante de células-tronco para tratamento da Doença de Crohn (DC), que causa inflamação intestinal crônica e não tem cura. Neste mês, a Câmara Técnica de Hematologia do Conselho Federal de Medicina (CFM) deu parecer favorável à inclusão do procedimento no rol de tratamentos autorizados na prática médica. Desde 2013, o transplante é realizado como procedimento experimental, dentro de protocolos clínicos de pesquisa.

Pioneiro no transplante de medula óssea (TMO) para remissão da Doença de Crohn na América Latina, em dez anos o médico Milton Ruiz realizou 71 procedimentos dos 80 documentados no País.

“Durante uma década acompanhamos todos os pacientes, documentando a evolução do quadro de saúde. A pesquisa indicou que, em um ano, 90% deles não precisaram tomar nenhum medicamento para tratamento dos sintomas da Doença de Crohn. As queixas desapareceram, comprovando a remissão e devolvendo a qualidade de vida aos pacientes”, afirma Ruiz.

Considerada uma doença autoimune, ou seja, resultado de uma resposta desordenada do sistema imunológico, a DC causa diarreia persistente, cólicas abdominais, anemia e até perfurações intestinais.

“Após cinco anos de doença, mais de 40% dos pacientes já terão sido submetidos a algum tipo de procedimento cirúrgico. Em dez anos, esse índice ultrapassa 80%”, destaca o hematologista.

O transplante de medula óssea, segundo o especialista, é indicado para condições em que o sistema imunológico do paciente apresenta pouca resposta às terapias convencionais. O método consiste em estimular a produção de glóbulos brancos e realizar a punção por meio de cateter na veia do pescoço. As células progenitoras (com capacidade para se reproduzirem) são separadas em laboratório e, após o período de criopreservação, são reintroduzidas no organismo através do mesmo cateter. No período de sete a dez dias do tratamento, o paciente permanece internado em leito de unidade de terapia semi-intensiva, com acompanhamento de equipe multidisciplinar que inclui gastroenterologista e nutricionista.

O vendedor Maurício Livorati, de 45 anos, que é morador de Jales, foi um dos pacientes acompanhados pelo hematologista Milton Ruiz.

“Recebi o diagnóstico da Doença de Crohn em 2014 com o doutor Kaiser. Até 2022 tentei quatro tipos de medicação injetável para tratar a inflamação intestinal. Eu tinha diarreia, fraqueza e muita dor abdominal. É uma doença incapacitante. Quando o médico me sugeriu o transplante, eu abracei na hora”, diz.

Ele realizou o procedimento no ano passado em Rio Preto, se libertou dos medicamentos e comemora o retorno ao mercado de trabalho.

Pode chegar ao SUS

Por enquanto, o transplante de medula óssea para tratamento da DC é ofertado apenas no Hospital Beneficência Portuguesa a pacientes com plano de saúde por meio de autorização judicial. Com o parecer favorável da Câmara Técnica do CFM, ele poderá ser incorporado ao rol de procedimentos autorizados pela Agência Nacional de Saúde Complementar, responsável pela regulamentação, controle e fiscalização das atividades relativas à saúde privada no Brasil.

Após a publicação de resolução pelo CFM, reconhecendo o TMO como tratamento para a DC, a pesquisa realizada em Rio Preto poderá ser encaminhada para Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) para ser disponibilizada pelo SUS.

Esperança para a dona de casa Elis Knack, de 26 anos, diagnosticada em 2020 e que depende do serviço público de saúde. “Além da dificuldade de acesso a um especialista, já gastei mais de R$ 3 mil por mês em medicamentos para tratar as complicações da inflamação no intestino. Tive que parar de trabalhar porque nas situações de crise vou até 15 vezes ao banheiro por dia”, lamenta.

A doença

Doença de Crohn é uma doença inflamatória do trato gastrointestinal. Ela afeta predominantemente a parte inferior do intestino delgado (íleo) e intestino
grosso (cólon), mas pode afetar qualquer parte do trato gastrointestinal.

É crônica e provavelmente provocada por desregulação do sistema imunológico, ou seja, do sistema de defesa do organismo.

Principais sintomas

Artrite: as articulações correm o risco de inchar, causando dor e endurecimento. Desaparece quando a inflamação intestinal é controlada.

Aftas e feridas na boca: seu desenvolvimento ocorre, geralmente, durante os períodos de inflamação ativa do intestino.

Sintomas de pele: aparecem erupções cutâneas ou doenças fúngicas, as
quais provocam dor e vermelhidão nas pernas.

Dor abdominal: geralmente no quadrante inferior direito, estando associada à diarreia (com ou sem sinais de muco e sangue).

Febre: indica alguma inflamação. Ela pode durar semanas ou até meses antes do aparecimento dos sintomas de Crohn, desaparecendo quando a inflamação intestinal é tratada.

Fadiga: o paciente pode sentir-se cansado facilmente.

Perda de peso e de apetite: as dores abdominais, juntamente com a
cólica, fazem o paciente perder o apetite. Com isso, ele acaba perdendo bastante peso.

Diarreia: um sintoma bastante comum para os pacientes de Crohn, a diarreia intensifica as cólicas intestinais e provoca fezes moles.

Cólicas e dor abdominal: o que leva o paciente a sentir cólicas é a inflamação e a ulceração, pois afeta o movimento normal dos conteúdos que passam pelo sistema digestivo.

Fezes com sangue: é comum, também, o paciente de Crohn apresentar sangue nas fezes, de cor vermelha ou mais escura, e até mesmo sangramento que o paciente pode não conseguir visualizar.

Enfraquecimento: ocorre por causa da dificuldade para absorver os nutrientes.

Sintomas oculares: os olhos ficam avermelhados, feridos e sensíveis à luz (fotofobia).

Doença perianal: pode haver dor ou drenagem perto ou ao redor do ânus por
causa da inflamação de um túnel na pele (fístula).

Tratamento convencional

  • Se volta para reprimir o processo inflamatório desregulado. Os medicamentos disponíveis atualmente reduzem a inflamação e controlam os sintomas, mas não curam a doença

Transplante com células-tronco

  • São retiradas células-tronco hematopoiéticas (produtoras de sangue) da medula óssea do próprio paciente
  • As células-tronco conseguem produzir anticorpos que não atacam o intestino, por isso são utilizadas novamente no paciente para substituir as células com a doença

Fonte: https://www.diariodaregiao.com.br/cidades/saude/conselho-federal-de-medicina-aprova-tratamento-de-doenca-de-crohn-com-celula-tronco-1.1897628