“Crianças não precisam de pais que brinquem o tempo todo. Precisam de pais que abracem”, diz pediatra Dr. Carlos González

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Com a segurança de quem é pai de três, avô e um profissional com um extenso currículo — doutor em pediatria, especialista em amamentação, além de autor de diversos livros —, o pediatra espanhol Carlos Gonzales veio ao Brasil conversar sobre os temas que mais causam preocupação aos pais, como alimentação, amamentação, desfralde e sono.

Na platéia, estavam pais e mães como a chef de cozinha Aline Glade, 33, mãe de Lilah, 2 anos. “Eu acho que o mais difícil é filtrar as informações que chegam até a gente, principalmente de familiares. Recentemente, Lilah teve uma tosse incessante por três meses e, por pressão deles, fui contra os meus instintos e acabei tomando a decisão errada. Me senti culpada, chorei, mas foi um aprendizado”, conta. “Acho que esses encontros nos trazem mais segurança para continuarmos sendo os melhores pais e reafirmar tudo o que a gente vem fazendo”, completa.

O encontro, realizado pela Editora Timo e com o apoio da Revista Crescer, aconteceu no Teatro Fecap, em São Paulo. “Sonhamos em conseguimos reunir essa turma incrível de pessoas em um evento muito bacana, para nos sentirmos mais potentes, mais felizes, mais conectados”, anunciou Ana Basaglia, publisher da Editora Timo, durante a abertura. O encontro também contou com a participação de profissionais como a neonatologista Marcia Zani, o pediatra Moisés Chencinski, a médica de família Denize Ornelas, as jornalistas Alessandra Gaidargi e Daniela Tófoli, diretora de grupo da Editora Globo, a escritora Thais Vilarinho e o psicólogo Alexandre Coimbra.

FILHOS COM BOM-HUMOR

Com muito bom-humor, o pediatra começou citando algumas situações do cotidiano dos pais, principalmente de primeira viagem. “As mães, quando vão ao pediatra pela primeira vez, costumam perguntar se precisam colocar despertador para amamentar o filho durante a madrugada. Mais tarde, elas ficam loucas, pois o bebê acorda de duas em duas horas. Então, eu digo: ‘Agora você pode ficar tranquila, pois não precisa de um despertador”, brincou. “Nessa idade, a única coisa que o bebê quer é a presença da mãe. Muitas vezes, quando ele acorda, ele quer apenas ela. Até os 3 anos, mais ou menos, ele vai chorar pedindo por você. Depois disso, ele vai parar de chorar, pois vai conseguir levantar e ir para a sua cama”, avisa.

Sobre a tão polêmica cama compartilhada, o pediatra afirma: “Basicamente, um bebê pode dormir em um moisés ao lado da cama dos pais, na cama com os pais ou sozinho, no seu próprio quarto. Cada família tem sua maneira. O importante é que os pais tenham o direito de dormir da maneira que quiserem e que possam mudar essa maneira, mais tarde, se desejarem”. Mas também fez alguns alertas, principalmente quanto aos riscos de asfixia. “A Academia Americana de Pediatra alerta quanto ao uso de pelúcias, protetores de berço, cobertores e almofadas dentro dos berços”, diz.

MITOS E VERDADES

Durante a palestra, Dr. Carlos também esclareceu alguns dos principais mitos da maternidade. Quem já não ouviu a frase: “Não sei porque amamentar por tanto tempo. Seu leite não alimenta, agora é água”. Segundo o pediatra, existem diversos estudos que comprovam que isso é mito. “Quanto mais o tempo passa, maior será a quantidade de calorias passadas pelo leite. O leite materno, se comparado a outros alimentos como papinhas, frutas e legumes, possui mais calorias, além de proteínas e cálcio”, diz.

Carlos González: “Seu filho não come? Não é preciso insistir, prometer, enganar, em meter-lhe a colher na boca”

Sobre a alimentação, que talvez seja a maior preocupação dos pais, ele falou: “Muitos me dizem: — Meu filho só quer comer doce! — Somos responsáveis pela comida que temos em casa. Se o seu filho só come chocolate, é porque você compra. O problema, então, não é o chocolate”. Além disso, o pediatra afirma que é um erro achar que criança deve comer de tudo. “Antigamente, cada região comia apenas os alimentos que cultivavam. Não se tinha acesso a tudo. Ela pode não comer de tudo, mas ter uma alimentação saudável”, completa. E quando seu filho recusar o parto, Dr. Carlos dá a dica: “prêmios ou castigos não servem para nada. Não insista, não faça promessas ou chantagem emocional. Deixe a criança em paz. Faça a refeição e ofereça. Se não quiser, tudo bem. A responsabilidade de oferecer alimentos saudáveis é sua. Você decide o que ela vai comer. Alguns dias, ela vai comer mais e outros menos. Todos somos assim”, explicou.

Quando o assunto é birra, ele afirma: “É mito dizer que as crianças precisam aprender a tolerar suas frustrações. Nenhuma criança precisa aprender a controlar-se como se não estivesse frustrada. Não podemos ensinar a criança a fingir. É nossa obrigação dizer o que elas devem ou não fazer, e elas ficarão frustradas, sim. Mas nós é que devemos aprender a tolerar as frustrações delas. Não podemos esperar que façam tudo o que mandamos e ainda fiquem agradecidas, isso é impossível”, explica.

Por fim, o pediatra deixou um recado que soa mais como um “alivio”: “Passamos décadas escutando que as crianças devem ser estimuladas com músicas, brinquedos e conversas. Os pais de hoje em dia já chegam no consultório com um bebê de um mês querendo saber o que devem fazer para estimular o tato, o olfato. Crianças não precisam de pais que fiquem falando, brincando, gesticulando ou cantando o tempo todo. Precisam de pais que abracem, mesmo que em silêncio, e os dêem afeto. Estímulo demais acaba até sendo perturbador e uma poluição sonora para eles. Seus filhos vão crescer muito mais rápido do que você imagina. Não perca tempo se preocupando com coisas pequenas”.

“Leveza e afeto. Se eu fosse resumir a maternidade e paternidade pelo olhar do Dr. Carlos González seriam essas as palavras que mais ele nos transmite ao falar do cuidado com os filhos. Foi um dia inspirador e cheio de informação, que tira aquele aperto no coração de muitos pais que buscam fórmulas prontas ao cuidar dos filhos”, finalizou a editora-chefe da Crescer, Ana Paulo Pontes. “Ele é incrível. Eu acho que o que ele falou hoje deveria estar em todos os ônibus, em todas as escolas, em todos os ambientes públicos, pois em todos eles têm crianças, uma mãe e um pai. As frases dele salvariam, sem dúvida, a sociedade como um todo. Ele te mostra uma lógica e você pensa: ‘Nossa, é tão simples! Como não pensei nisso antes?’ É uma ‘calma’ pra quem está cheia de tanta culpa”, finalizou a professora, bióloga e consultora em aleitamento materno e mãe de dois, Livia Polichiso, 33.

Fonte: Revista Crescer